Por uma fresta entre as persianas
dava pra compartilhar a sofreguidão
com as luzes rosadas e suas convulsões,
rojando anseio, enquanto o sol adormeceu
sob um último raio desperto.
Em um piscar de olhos, noutra esquina
“tout est devenu noir” finalmente.
O olor das árvores resfriando com a brisa
e o vai-vém brilhante rubro-lourejado,
em um composto anestésico de êxtase,
ejetaram-me muito acima dos faróis
e além do tempo que levei até chegar
no início do que me fez transpor a escuridão.
Tudo parou. Tudo fez tanto sentido
que não ouvi qual era a música no rádio.
Apenas uma onda como um flash, na retina.
E foi tanta luz que quando fecho os olhos,
ainda posso vê-la gravada na mais íntima noite.
A mais cintilante madrugada que enxerguei.
Tão indecifrável quanto o hindi sussurrado.
Quando percebi, já era quase manhã…
Os tons abraçavam as formas reconstruindo tudo.
Senti que muito havia mudado neste então.
Aquela radiação fotografou-me as intenções.
Foi tão além do meu querer que até sonhei.
Agora, enquanto fecho os olhos,
sinto o cheiro amadeirado de um pomar ao vento
e não vejo qualquer outra forma senão um sinuoso clarão
daquela nuvem que me atravessa fulgurante.
Sinto seus raios pulsando à minha volta
como se desenhassem dimensão ainda mais clara.
Sumo envolvido em um mar luminescente
desta claríssima atmosfera suave e linda.
Um lugar onde a luz quase adormece com um abraço,
e por muito pouco não a aprisiono no meu mundo esclarecido.
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A violência das tuas lembranças
me sequestram sorrisos espásmicos.
Enquanto meu mundo eclode, aqui
continuo sedado, ignóbil, como ontem.
Sou planta, balançando ao vento
à espera do sol que bate às quatro
para cauterizar em minha carne
as úlceras que nasceram da tua ausência.
Nada faz sentido. Nem som, nem cor ou movimento.
Só o vácuo… A inanição.
Nunca chega o então.
Não há novidade na repetição…
Sigo o compasso religiosamente pontual.
A inconclusiva cardiopatia.
Já não houve. Não havia mais.
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O silêncio debilita-me o ouvido
encarcerando-me em profunda solidão.
A saudade de qualquer palavra tua
me tortura até a alma semi-nua
e, com fúria de animal enraivecido
me devora, corroendo o coração.
Muito embora saiba eu que tu és minha,
‘inda tendo estado junto a ti há pouco,
me debato em meio aos sonhos como louco
almejando-te em meus braços, como tinha.
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Às vezes, entre um frame e outros, muito menos que em um piscar de olhos é o espaço de tempo necessário para a luz escrever poesia em nossa retina.
São os raros momentos quando prefiro as imagens às palavras.
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Sob esta chuva, até parecem gêmeas, tão semelhantes.
A primeira, linda, de olhar rápido, em zigue-zagues corre na serragem.
A outra, protela o momento de fitar-me os olhos.
Brincam ajoelhadas sobre as farpas do galpão, encardindo as meias-calça que desfiam.
Nas solas dos sapatos, restos de animais que não respiram há um bom tempo.
Quanto à beleza, tão intensas que confundem a quaisquer olhos.
Mas a segunda, tem a malícia do poder, enquanto que a primeira, ingênua, é solidária.
De solidariedade, bem na verdade, as duas se conhecem. O que teria sido tão natural no mesmo ventre?
Mesmo assim, não se consolam uma à outra ao perceber que o sangue brota das suas pernas enfeitadas pelas farpas insensíveis.
O mais curioso é que não falam, mas se olham com intimidade constrangedora. Como se enxergassem, uma à outra, em tudo aquilo que não têm e nunca foram.
Mas a inveja jamais lhes fez companhia. Apenas a contemplação. O desejo. A falta. A inspiração.
E assim, na busca do que não terão, seguem tão amigas, tão irmãs.
Como numa brincadeira de roda, onde ora vem uma e vai-se a outra e vice-versa.
Já a serragem, cada vez mais, fica marcada aos pisões, pelas danças mudas.
Suja de sangue e pelos das memórias dos bichinhos tão ausentes que nos faziam parecer uma família possível.
Duraram pouco para ver que nos tornamos seu próprio mausoléu.
Basta desta bizarrice!
Mas como interferir se não estou certo?
Quais seriam as palavras de um velho como eu que tanto hesitou ao dar-se conta de que o flagelo é inevitável?
Seria uma remissão tentar contê-las?
Como poderia abandoná-las? Pois já não quero seus sorrisos infantis me invadindo e sapateando minhas farpas. Alvoroçando os meus fósseis sonolentos e me obrigando a escolher à qual prefiro.
Preferir seria acreditar que uma delas me faria sentir melhor e a consequência seria o fruto da rejeição da outra, que me odiaria.
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Eu vi o nascer do sol como se escorresse da sua cabeça
E tudo que havia ao entorno era penumbra e breu.
Suas mãos eram suaves com as asas de uma Danaus
Enquanto o seu perfume embaralhava todas as minhas idéias
Abrindo-as sobre o veludo com a precisão de uma ilusionista.
Não me cabia o blefe, nem me inspiravam os naipes
Então, em cada olhar pasmo me denunciei na angústia
De exibir minha falência ante seu cêrco implacável.
Em um campo avassalado, caí sob minha nudez.
Não havia dor, nem rancor ou qualquer repreensão,
Apenas pulsava o prazer e o riso me enchia a face,
No delírio de falir paralisado e consciente, inconseqüente…
Sentindo o gosto do orvalho que brota da sua boca,
Dando outra vista aos olhos e arritmia ao peito
De quem se aventura a fitar os seus olhos
E desejar algo mais que admirar sua beleza exposta.
Venham Diamantes, Corazones, Piques y Treboles!
Sucumbiram os meus coringas mas permanecem o ócio e o vício
de receber das suas mãos, as cartas do meu próximo jogo.
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Lá estava eu novamente, bem diante de toda aquela escuridão.
Enquanto tua atenção em brisa me massageava os cabelos,
os tufões da dispersão assolavam tudo o que preservei a cada dia.
Frente ao caos, fechei os olhos. Nem senti a falta do ar…
Sequer ouvi meu rosto tocar o chão.
Apenas regorgitava o féu das asas dos teus pensamentos
que pareciam querer saltar-te dos olhos.
Tão cinzentas quanto a fumaça sobre o lago dos desejos estancados em meu peito.
Macias a ponto de esculpir escaras letais às costas da alma.
Sarcásticas presílhas das luvas de um carrasco,
que tilintam aos ouvidos do réu até a rendição absoluta.
Talvez, se eu tivesse conseguido capturar um único vôo dessas sombras,
teria conseguido sobreviver à dor de perdê-la da vista.
Talvez não tivesse fechado os olhos.
Mas minhas armadilhas faliram em seus propósitos
e despedaçadas adornaram minha vergonha crua.
Não há nenhum memorial.
Mal sabe quem me pisoteia todos os dias.
Pois nem houve batalha. Apenas um massacre.
E pra mim o fim, mais uma vez.
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Tantas janelas tem esta sala que quase não percebi tua chegada.
Você, também… Entra e sai assim tão à vontade que te incorporei ao meu ambiente.
Estava olhando ali ao leste. Vai chover daqui a pouco.
O vento já mudou…
Venha.
Esqueça as janelas. São largos os beirais.
Sinta o cheiro das folhas. Parecem gritar exalando a evocação da garoa.
Logo o entardecer ungirá isso tudo como um manto terroso-amarelado.
E o embalo dos relâmpagos os fará lúcidos em centenas de momentos ínfimos, até que atinjam a fadiga absoluta.
Então, enquanto todos, ébrios e obscuros adormecerem em seus sonhos profundos, sentaremos ao chão, com chá, para dividirmos nossas confissões sobre o tapete.
E as janelas… Que permaneçam abertas. Já se foi a tempestade.
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Nunca fui parcial quanto ao tanto que amei,
arrisquei,
me entreguei,
entreti, acreditei,
ouvi,
calei…
Nunca fui só um pouco,
sempre fui o excesso ou nada.
Nunca remediei uma fratura
Sempre amputei braços e pernas
Ou curei as próprias chagas com saliva e lágrimas.
Nunca disse que iria pensar se sim ou que não…
Sempre disse SIM,
Às vezes disse não.
Subi em penhascos e desci a abismos.
Me joguei em voos absurdos e desapareci entre nuvens,
Ora planando às alturas, ora em queda livre
E sempre acordei no dia seguinte.
Sempre sorri na manhã seguinte.
Sempre resolvi arriscar de novo.
Sempre enxerguei alguém que valesse a pena,
Quer fosse um desconhecido ou o companheiro de ontem.
E todas as vias que abri, embrenhado nesta minha selva
Me levaram até o fim
E ao recomeço.
Talvez seja um ciclo infindável
Ou seja uma nova trilha, definitivamente.
Talvez seja a pura vontade abusiva de viver
Tudo que seja possível dentro de mim, só.
Ou seja uma fome do sangue que corre nas minhas veias.
Quem sabe, ainda, o vazio entre cada batida no meu peito,
Que me faça impelir contra mim mesmo
E contra toda a impossibilidade de não alcançar o cume
Da minha bizarra vaidade de achar que posso
Te encontrar um dia
Num recomeço…
Em um fim
De uma rua ou em uma esquina
Onde estejas me esperando…
Me chamando entre as frestas
Do tapume que me impede de enxergar
O que há logo ali, a poucos palmos
Na tua direção.
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Rá!
corram, corram!
Vão alêm das núvens pálidas e ecoem sobre as águas.
Mas parem diante da singeleza de coração.
quando um suspiro sair da alma, pausem caladas.
Porém, no momento em que o ar faltar nos pulmões,
vibrem tão alto que todas sejam uma só e envolvam a alma aflita.
Porque qualquer lugar que entrarem nunca mais será o mesmo.
E quando se calarem por completo, continuarão ressonando no espírito daquele que as ouviu, na cadência eterna capaz de mudar o andamento da vida.
Num estalar do compasso, aos quatro tempos voltem para mim, através dos meus tímpanos.
Enchendo a nave e recheando os vitrais até que tudo adormeça e o calor tome conta deste lugar.
Então, vão!
O mais rápido que puderem.
Tão forte quanto for possível.
Tão longe quanto alcançarem.
Vão. E não se demorem.
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Hoje eu reparei o quanto há edifícios tortos no caminho de todos os dias.
Alguns parecem que virão ao chão antes que anoiteça por completo.
E esses pobres coxos apressados, como têm defeitos, meu Deus!
São fraturas expostas à putrefação, como não vi isso antes?
Quantos mancam disfarçando os traumas herdados dos teus abraços!?
Talvez não devesse mesmo ter comido aquele fruto que puseste em minha boca…
Percebi tua estupidez e a falta dos dotes de mulher desde teus ombros.
O gosto de arrasto feriu minha saliva com a podridão dos teus falsos beijos.
E a ressaca miserável da mistura dos teus perfumes me reviram as víceras.
Mas esta dor me fará voltar à superfície dessa linfa nojenta.
Pois sinto a falta do calor das tuas mãos nas minhas costas.
E, aos poucos, meus olhos incandescem com a entrada da luz do sol severo.
Já não lembro mais há quanto tempo não sentia meus pés doerem ao pisar o chão.
Parece que estou quase apto a ressentir tudo que me agrediu:
A insegurança, as dores, o medo e a vontade de continuar.
Mesmo que seja na tão duradoura vítrica fuga dos teus olhos
ou na dificuldade de respirar sem teus suspiros banhando meus lábios.
Assim como na precisão entediante da palpitação pontual do peito.
No gélido beat cardíaco flambado pela acidêz da cárdia.
Por isso, transgredi. Acreditei que havia mais do que tua suficiência úbere.
Descobri minha raquítica insuficiência terminal.
Agora sei que preciso do látex das tuas papoulas tiranas.
Minha boca está seca e meus ouvidos dóem como se sangrassem.
Meu pensamento estrala, como se estivesse ressecando tuas memórias.
Perturbado, vejo você, límpida, publicando teu paradisíaco sorriso lento
Em meio aos respingos do meu sangue no colo das tuas sedas azuis.
Minha pele coça como se me pedisse para arrancá-la à unha.
E meus dentes rangem rosnando os fonemas do teu nome.
Padeço sem teu perdão, antes de perder o viés do sentido.
Antes que o chôro se apodere dos meus olhos aflitos…
E eu rasteje pelos lances surreais, procurando teus tornozelos,
Lamentando ter abdicado os teus beijos transtornando-me em desgraça.
Talvez ainda eu possa identificar teus passos na chuva antes que a água me dilua.
Antes que eu evapore e os ventos me carreguem pra tão longe quanto me arrependo.
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Abismo, já precipitado…
Pouco depois da pausa
um surdo estampido me acalma.
Estarrece-me o fôlego d’alma,
tamanho terror que me causam
presságios que tenho do trauma.
Numa fração de segundo
despedem-me os pés do terraço,
os olhos cerram, abro os braços;
De alma e sangue no espaço
desfaleço em vôo profundo.
Incandeço no peito e a ardência
escorre-me acima das costas.
No torpôr traz a esperança
que extasia-me a demência,
descarnando-me à mostra
as asas que tanto gostas…
Morro vil, vivido santo;
Refém do desejo incauto,
Aviltado como em assalto.
Nem velho, nem tão infanto,
lúcido, frio e infausto,
Incólume em meu recanto.
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Quase não sinto o frio.
O chão e suas marinas abraçam meu corpo inânime.
Quase não sinto a areia assentar-se em minha boca.
Quase não ouço o silêncio iname.
Então, desertam-me os olhos e mergulham entre as fendas do teu olhar,
despindo-me a lucidez entorpecida diante da turva paz das tuas profundezas obscuras.
Quem dera um fôlego sobejo me povoasse as lúgubres entranhas…
Mas um náufrago infortúnio afogou-me fatalmente o vazio dos pulmões.
Restam-me tua visão colossal e a morte lenta
lenida pelo desejo de te habitar e diluir-me no abismo dos teus mistérios mais secretos.
Já não ouço o silêncio…
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Pena-anistia, culpa-perdão?
O crime incendiou-me a alma fria.
Fêz-me provar o que jamais poderia
e a histeria inflou asas no meu coração.
O meu peito entregou-se a esse amor bastardo,
órfão do desejo e da ingenuidade,
que jogado ao lixo na maturidade,
trouxe a tempestade, mas me fêz canção.
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É quase o fim da linha.
Reverberam risos para perturbar a paz dos pensamentos vazios.
Densas massas brancas se impõe no celeste azul.
“Acho que limparam estes vidros hoje…”
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Vêz ou outra procuro achar palavras que jamais tenham sido ditas a uma mulher, por mais maravilhosa que fosse e, fatalmente me frustro. Mas meu consolo vem sem medida quando percebo que a exclusividade e originalidade das palavras nem sempre são tão companheiras. Entretanto, o sentimento que me domina é único, verdadeiro, exclusivo, autêntico, puro, jamais medido em seu começo e imensurável em seu final, indomável, mas espontâneo. Tão simples a ponto de ser incompreensível.
Antagônico, talvez, na sua forma, mas com uma direção específica: você!
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Autuado em flagrante
Com sorriso nem desfeito.
Alvejado na flor do peito.
…Sirenes gritando: Desejo!
Pus-me em fuga, lentamente
Prestando atenção no seu jeito.
Nem percebera o farol,
Sonhando com o primeiro beijo.
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.
Ah, nego bonito!
Quanta agilidade com os pés descalços…
Entre uma pedalada e outra, nem toma conhecimento de quem passa pela bola.
Sua fantasia toma conta da praia e desenha uma partida decisiva na areia.
E ali, de costelinhas à mostra, pula com uma leveza que o faz deslizar sobre a água.
Tudo se mistura numa tinta de amarelos-marrons, como se o mundo fosse de caramelo.
Mas o centro deste universo de raça, cor e suor
é a cabecinha encaracolada que viaja em cada lance.
Goooool! Grita com os dentes graúdos estampados num sorriso infantil.
Seus olhos refletem o majestoso crepúsculo dourado.
E, numa explosão de felicidade e vibração, as ondas quebram como uma multidão de vozes.
Mas o grande felizardo torcedor sou eu: orgulhoso e sentado na areia,
me embalo na marola da imaginação desse neguinho.
Como se pudesse ter viajado no tempo e me visse dividindo esta partida
numa goleada de prazer e vida.
Olê, olê, olê, olá…
Dedico ao meu filho Leonardo,
o grande protagonista desta visão maravilhosa e otimista da vida simples e feliz.
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Olhei para o relógio e senti, de repente, um golpe.
Dobrei-me de dor e náusea e perdi o tempo de vista…
Como se não tivesse controle algum, se é que o tive em um instante sequer.
Foi como um presságio. Como um segundo entre a queda de uma cristaleira
e os cacos atirando-se em todas as direções.
Achei que ela não me esperaria mais.
Procurei o telefone, num reflexo de dor e pânico,
mas me detive entre os dígitos que pareciam nos separar.
De olhos fechados, apaguei-me na escuridão de tudo que lembrei
do que de bom houve entre nós.
Parecia inevitável. Era uma catástrofe tão real quanto absurda.
Tão absurda quanto pensar em me abrigar.
Tive certeza do fim quando tentei chorar e franzi os olhos de raiva,
consternados pela minha frieza sem lágrimas.
Então, decidi não procurar palavras.
Vou sentar no chão e deixar um tempo passar.
Algumas dezenas de pessoas pela calçada, e milhares de pensamentos
nos córregos da minha mente me ajudarão a afogar esta incapacidade de reagir.
Lembrei que me senti incapaz quando a conheci. Tão incapaz quanto uma criança ingênua.
Agora, sinto-me como uma sacola velha que voa sem qualquer rumo, carregada pela calmaria que precede a tempestade. Alguém prestes a encarar o perpétuo trauma da separação.
Sinto que perdi.
Só não perdi a vontade de viver porque isso me cansaria ainda mais.
E a curiosidade me aguça para saber até onde isso vai.
Mas a perdi e sinto. Muito… Muito mais do que imaginei.
Sempre achei que desfazer seria a última ação.
Mas estou descobrindo não ser o fim.
Há algo ainda pior, logo depois, que quase vejo.
Assumo que o vício nem me parece tão ruim
ao sentir a dor de não sofrer efeito algum do que agora começa me parecer puro engano.
Não vou pedir que esqueça o tempo em que fomos nós.
Fatalmente eles se desatarão pelo desgaste.
O próprio tempo nos apagará e deixará uma marca mais profunda de sofrimento.
O sofrimento de ter desejado tanto passar cada dia ao seu lado.
De ter sorrido sozinho, de olhar vazio, na lembrança dela.
E, por mais que queira, já não sentir mais, pois, se foi.
Foi-se tão de repente que a porta ficou entreaberta.
Mas isso não tem importância.
Nada tem importância, afinal.
A tarde, agora, me parece um metal dourado. Uma transição.
Que ainda é quente, pelo sol que se vai por trás das folhas, mas que será gelada como a madrugada solitária.
É a hora da mudança.
Nada mais será assim.
Não há o que se possa fazer por mim, nem por você juntos.
Mas o que se pode deixar de fazer é o que farei.
Até não ter mais tempo algum.
Nem para sonhar com o desejo, nem para desejar não ter sonhado.
Vou ajudar o tempo.
Não vou correr, nem me adiantar para lugar nenhum.
Também não vou tentar atrasar o fim.
Apenas vou parar.
Apenas vou.
Apenas até o fim.
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Placebo
Posted on 12. fev, 2010 by Fábio Bioca.
Súbito momento para tal fraqueza.
Tive a sensação de desfalecer.
Levantei o queixo, reduzi o passo
e fechei os olhos pra me reaver.
Quando a escuridão inundou-me as pálpebras
e a respiração parecia um fim,
No cafeinado bronze anoitecido,
descobri tua pele, recordei teu riso…
E quase chorei quando voltei a mim.
Então, recobrado, ainda ofegante,
desviei o rumo de onde ia, ali.
Contornei a praça, o estacionamento
e segui em frente, até quando te vi.
Esqueci de tudo, afastei o medo
e abri os meus braços como um beija-flor.
Franco e seduzido, expus um sorriso
quase transparente, claro e decidido,
te envolvi em abraços, senti teu calor.
Caminhei na chuva, desenhei na areia
Faltei ao trabalho, desejei bom dia.
Viajei por horas, esqueci do almoço.
Olhei para o nada e conversei comigo.
Confessei-me a paz de me sonhar contigo.
Admiti sentir no peito um alvoroço.
E concluí que toda minha fantasia
Foi um mal-estar ao conceber-te alheia.
Já não vejo a hora de voltar pra perto
De sentir calor, de braços abertos…
Francamente, ali, vendo teu sorriso,
Anoiteço os olhos em qualquer deserto.
Sem sentir o frio do amanhã incerto,
Pois teu colo agora é o que eu preciso.

