Finalmente
Posted on 15. mar, 2010 by Fábio Bioca in Poesia
Olhei para o relógio e senti, de repente, um golpe.
Dobrei-me de dor e náusea e perdi o tempo de vista…
Como se não tivesse controle algum, se é que o tive em um instante sequer.
Foi como um presságio. Como um segundo entre a queda de uma cristaleira
e os cacos atirando-se em todas as direções.
Achei que ela não me esperaria mais.
Procurei o telefone, num reflexo de dor e pânico,
mas me detive entre os dígitos que pareciam nos separar.
De olhos fechados, apaguei-me na escuridão de tudo que lembrei
do que de bom houve entre nós.
Parecia inevitável. Era uma catástrofe tão real quanto absurda.
Tão absurda quanto pensar em me abrigar.
Tive certeza do fim quando tentei chorar e franzi os olhos de raiva,
consternados pela minha frieza sem lágrimas.
Então, decidi não procurar palavras.
Vou sentar no chão e deixar um tempo passar.
Algumas dezenas de pessoas pela calçada, e milhares de pensamentos
nos córregos da minha mente me ajudarão a afogar esta incapacidade de reagir.
Lembrei que me senti incapaz quando a conheci. Tão incapaz quanto uma criança ingênua.
Agora, sinto-me como uma sacola velha que voa sem qualquer rumo, carregada pela calmaria que precede a tempestade. Alguém prestes a encarar o perpétuo trauma da separação.
Sinto que perdi.
Só não perdi a vontade de viver porque isso me cansaria ainda mais.
E a curiosidade me aguça para saber até onde isso vai.
Mas a perdi e sinto. Muito… Muito mais do que imaginei.
Sempre achei que desfazer seria a última ação.
Mas estou descobrindo não ser o fim.
Há algo ainda pior, logo depois, que quase vejo.
Assumo que o vício nem me parece tão ruim
ao sentir a dor de não sofrer efeito algum do que agora começa me parecer puro engano.
Não vou pedir que esqueça o tempo em que fomos nós.
Fatalmente eles se desatarão pelo desgaste.
O próprio tempo nos apagará e deixará uma marca mais profunda de sofrimento.
O sofrimento de ter desejado tanto passar cada dia ao seu lado.
De ter sorrido sozinho, de olhar vazio, na lembrança dela.
E, por mais que queira, já não sentir mais, pois, se foi.
Foi-se tão de repente que a porta ficou entreaberta.
Mas isso não tem importância.
Nada tem importância, afinal.
A tarde, agora, me parece um metal dourado. Uma transição.
Que ainda é quente, pelo sol que se vai por trás das folhas, mas que será gelada como a madrugada solitária.
É a hora da mudança.
Nada mais será assim.
Não há o que se possa fazer por mim, nem por você juntos.
Mas o que se pode deixar de fazer é o que farei.
Até não ter mais tempo algum.
Nem para sonhar com o desejo, nem para desejar não ter sonhado.
Vou ajudar o tempo.
Não vou correr, nem me adiantar para lugar nenhum.
Também não vou tentar atrasar o fim.
Apenas vou parar.
Apenas vou.
Apenas até o fim.


Com a palavra