Megera Cólera

Posted on 29. mai, 2010 by Fábio Bioca in Poesia

Hoje eu reparei o quanto há edifícios tortos no caminho de todos os dias.

Alguns parecem que virão ao chão antes que anoiteça por completo.

E esses pobres coxos apressados, como têm defeitos, meu Deus!

São fraturas expostas à putrefação, como não vi isso antes?

Quantos mancam disfarçando os traumas herdados dos teus abraços!?

Talvez não devesse mesmo ter comido aquele fruto que puseste em minha boca…

Percebi tua estupidez e a falta dos dotes de mulher desde teus ombros.

O gosto de arrasto feriu minha saliva com a podridão dos teus falsos beijos.

E a ressaca miserável da mistura dos teus perfumes me reviram as víceras.

Mas esta dor me fará voltar à superfície dessa linfa nojenta.

Pois sinto a falta do calor das tuas mãos nas minhas costas.

E, aos poucos, meus olhos incandescem com a entrada da luz do sol severo.

Já não lembro mais há quanto tempo não sentia meus pés doerem ao pisar o chão.

Parece que estou quase apto a ressentir tudo que me agrediu:

A insegurança, as dores, o medo e a vontade de continuar.

Mesmo que seja na tão duradoura vítrica fuga dos teus olhos

ou na dificuldade de respirar sem teus suspiros banhando meus lábios.

Assim como na precisão entediante da palpitação pontual do peito.

No gélido beat cardíaco flambado pela acidêz da cárdia.

Por isso, transgredi. Acreditei que havia mais do que tua suficiência úbere.

Descobri minha raquítica insuficiência terminal.

Agora sei que preciso do látex das tuas papoulas tiranas.

Minha boca está seca e meus ouvidos dóem como se sangrassem.

Meu pensamento estrala, como se estivesse ressecando tuas memórias.

Perturbado, vejo você, límpida, publicando teu paradisíaco sorriso lento

Em meio aos respingos do meu sangue no colo das tuas sedas azuis.

Minha pele coça como se me pedisse para arrancá-la à unha.

E meus dentes rangem rosnando os fonemas do teu nome.

Padeço sem teu perdão, antes de perder o viés do sentido.

Antes que o chôro se apodere dos meus olhos aflitos…

E eu rasteje pelos lances surreais, procurando teus tornozelos,

Lamentando ter abdicado os teus beijos transtornando-me em desgraça.

Talvez ainda eu possa identificar teus passos na chuva antes que a água me dilua.

Antes que eu evapore e os ventos me carreguem pra tão longe quanto me arrependo.

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