Ciranda

Posted on 04. jun, 2010 by Fábio Bioca in Crônica, Desabafo, Opinião

Sob esta chuva, até parecem gêmeas, tão semelhantes.

A primeira, linda, de olhar rápido, em zigue-zagues corre na serragem.

A outra, protela o momento de fitar-me os olhos.

Brincam ajoelhadas sobre as farpas do galpão, encardindo as meias-calça que desfiam.

Nas solas dos sapatos, restos de animais que não respiram há um bom tempo.

Quanto à beleza, tão intensas que confundem a quaisquer olhos.

Mas a segunda, tem a malícia do poder, enquanto que a primeira, ingênua, é solidária.

De solidariedade, bem na verdade, as duas se conhecem. O que teria sido tão natural no mesmo ventre?

Mesmo assim, não se consolam uma à outra ao perceber que o sangue brota das suas pernas enfeitadas pelas farpas insensíveis.

O mais curioso é que não falam, mas se olham com intimidade constrangedora. Como se enxergassem, uma à outra, em tudo aquilo que não têm e nunca foram.

Mas a inveja jamais lhes fez companhia. Apenas a contemplação. O desejo. A falta. A inspiração.

E assim, na busca do que não terão, seguem tão amigas, tão irmãs.

Como numa brincadeira de roda, onde ora vem uma e vai-se a outra e vice-versa.

Já a serragem, cada vez mais, fica marcada aos pisões, pelas danças mudas.

Suja de sangue e pelos das memórias dos bichinhos tão ausentes que nos faziam parecer uma família possível.

Duraram pouco para ver que nos tornamos seu próprio mausoléu.

Basta desta bizarrice!

Mas como interferir se não estou certo?

Quais seriam as palavras de um velho como eu que tanto hesitou ao dar-se conta de que o flagelo é inevitável?

Seria uma remissão tentar contê-las?

Como poderia abandoná-las? Pois já não quero seus sorrisos infantis me invadindo e sapateando minhas farpas. Alvoroçando os meus fósseis sonolentos e me obrigando a escolher à qual prefiro.

Preferir seria acreditar que uma delas me faria sentir melhor e a consequência seria o fruto da rejeição da outra, que me odiaria.

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One Response to “Ciranda”

  1. Fábio Bioca

    07. jun, 2010

    Resultado de um dia difícil, Ciranda personaliza a Amizade e a Solidão. Coincidir a intimidade de um amigo com a sua disponibilidade no momento que você precisa tem sido praticamente coisa de loteria. Como minha sorte para os jogos não anda assim tão em alta, a frustração faz transbordar o féu entre as palavras geladas.

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