Megaton
Posted on 27. jul, 2010 by Fábio Bioca in Poesia
Por uma fresta entre as persianas
dava pra compartilhar a sofreguidão
com as luzes rosadas e suas convulsões,
rojando anseio, enquanto o sol adormeceu
sob um último raio desperto.
Em um piscar de olhos, noutra esquina
“tout est devenu noir” finalmente.
O olor das árvores resfriando com a brisa
e o vai-vém brilhante rubro-lourejado,
em um composto anestésico de êxtase,
ejetaram-me muito acima dos faróis
e além do tempo que levei até chegar
no início do que me fez transpor a escuridão.
Tudo parou. Tudo fez tanto sentido
que não ouvi qual era a música no rádio.
Apenas uma onda como um flash, na retina.
E foi tanta luz que quando fecho os olhos,
ainda posso vê-la gravada na mais íntima noite.
A mais cintilante madrugada que enxerguei.
Tão indecifrável quanto o hindi sussurrado.
Quando percebi, já era quase manhã…
Os tons abraçavam as formas reconstruindo tudo.
Senti que muito havia mudado neste então.
Aquela radiação fotografou-me as intenções.
Foi tão além do meu querer que até sonhei.
Agora, enquanto fecho os olhos,
sinto o cheiro amadeirado de um pomar ao vento
e não vejo qualquer outra forma senão um sinuoso clarão
daquela nuvem que me atravessa fulgurante.
Sinto seus raios pulsando à minha volta
como se desenhassem dimensão ainda mais clara.
Sumo envolvido em um mar luminescente
desta claríssima atmosfera suave e linda.
Um lugar onde a luz quase adormece com um abraço,
e por muito pouco não a aprisiono no meu mundo esclarecido.


Com a palavra