O amor

Posted on 21. jan, 2010 by Fábio Bioca.

3

Não se repete,
não se corrompe,
não se corrói
nem se reflete.

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Desengano

Posted on 20. jan, 2010 by Fábio Bioca.

0


.
Sangra, ao marulhar das tuas lembranças absurdas, minha memória insana.
As rôtas lamentações que adornam meus pavilhões ensurdecidos
são as rezas débeis do que me fora a fé, incrédula.
Foram-se os dias felizes…
Foi-se a alegria, restam-me todos os dias…
Sonhos emboloram-se feitos tolices obscenas
rebocadas nas paredes frias do meu coração infanto.
E o riso? Jaz só riso ou sorriso
desdentado e enjaulado pelo delito insólito de crer na candura dos teus olhos incontempláveis.
Que seriam as fontes da purificação do corpo,
refrigério da alma e teu colo acolheria todo o desalento da espera da tua primeira vista.
Sangro ao banhar em tuas lembranças absurdas, minha esperança humana.

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Sismo

Posted on 19. jan, 2010 by Fábio Bioca.

1


.
O castelo de areia ruiu,
A criança corre nua sob suas lágrimas.
Suicidou-se a esperança que já era cruel.
A escuridão tomou conta do seu infinito,
E a imundície virou o cenário de um dia normal.
São moedas do seu dia-a-dia:
Medo, dor, solidão e agonia
Ainda chovem, encharcando a cabeça de quem quer o sol.
A miséria é geral e abundante.
Deve anão desejar ser gigante?
Não há morte pra quem está morto, mas há ressurreição.
A clareza dos tons anoitece,
A firmeza das mãos adormece.
Sobe um gosto de morte à saliva.
Vence o sono e convence, passivo,
Que o futuro haja sobrevivido.
Ouçam! Até me parece um gemido…
Quem sabe encontremos aqui!?

Faltarão centenas na aurora,
Mas em nós remanesce o Haiti.
Quem em nós remanesça o Haiti.

:::

Todos conhecemos o Haiti, dentro de nós, em algum momento das nossas vidas. Naquela dor angustiante da perda de quem amamos, na sensível impotência diante da coação a que fomos submetidos pelas forças naturais (e outras não tão naturais assim). Todos sabemos o quanto é solitária a tarefa de vasculhar as ruínas do que sobrou da nossa vida, por mais cruel que fosse, mas que hoje já traz saudade, diante da triste atualidade.
Sem demagogia, lamento tanta tragédia sobre um povo tão explorado e machucado. Tenho chorado pelo Haiti. Principalmente porque o Haiti, cada vez mais é em qualquer lugar. Amanhã pode ser aqui. Como na canção do Gil, “o Haiti pode ser aqui, sim”.

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Censura

Posted on 18. jan, 2010 by Fábio Bioca.

3


.
O quanto és tirana, ó estúpida razão!…
Musa do assalto que acometo à minha paixão,
Tanto me proteges com tuas garras que devoras
Irracionalmente vinho, sangue e carne-pão.
És tão viril quando combates teus profanos,
Tão imoral, de falsa maternidade
Aliás, fonte da insensibilidade,
Já que preferes acalentar a dor
Quando definhas escondendo a insanidade
Na fuga de enamorar-se do que é humano.
Enquanto abortas a fé, negas teu pânico
Por temer admitir sonhar com o amor.

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Ressaca alviverde

Posted on 07. dez, 2009 by Fábio Bioca.

8
Se tem uma coisa que o futebol causa é a euforia. Um efeito catártico que faz milhares de indivíduos assumirem uma marca que não lhes pertence, incondicionalmente, por algo que juram ser amor. E, sinceramente, não há nada de errado com isso.
O futebol acaba sendo um hobby, uma terapia, um assunto e uma válvula de escape para a pressão do dia-a-dia.
Pena que, por trás disso hajam os aproveitadores. Os cambistas, os mercenários, os bandidos infiltrados nas torcidas organizadas e a pior corja: os cartolas.

Estes últimos, seres vampirescos, parasitas que fazem do que deveria ser uma expressão cultural uma gincana pessoal bizzarra.
Eu poderia estar desabafando a frustração da queda do Coritiba novamente para a segunda divisão do futebol brasileiro. Mas vou tentar me privar dessa tarefa sofrível. Quero me ater à imbecilidade a que nós, torcedores genuínos, nos sujeitamos. Um auto-flagelo ignorante da hedionda indiferença de um bando de velhos barrigudos e coronéis ridículos que se instituem donos daquilo que insistimos em acreditar, por tanto tempo, ser o nosso time do coração.
Falo de gente tão inescrupulosa que, são capazes de acreditar que os absurdos ocorridos ao final do jogo, no Couto Pereira, não seja, na sua maior parte, sua responsabilidade. Gente má. Criminosos. Tão agressores quanto qualquer bandido furioso que foi capaz de levantar uma pedra ou um porrete para promover a barbárie que se viu ao vivo pelas TVs neste fatídico domingo.
Eu sempre fui aos jogos, sempre acreditei que a união faz a força. Mas, esse tipo de força cataclísmica está longe das minhas aspirações.

E a união com gente da estirpe de todos os diretores e responsáveis pelo Coritiba Football Club, jamais aceitarei como mácula na minha vida.
Já cometi erros, já fui estúpido, imoral e irresponsável. Voltei atrás e limpei minha história.
Se, em uma empresa, alguém que foi contratado para administrá-la (por que há remuneração – o que configura a contratação, mesmo que por eleição dessa corja), e este alguém (e sua quadrilha), no ano do centenário desta empresa, diante dos olhos de todos a fazem perder mercado, agridem seus clientes e desclassificam a empresa como uma das melhores do país, sem serem SEVERAMENTE RESPONSABILIZADOS E PUNIDOS, certamente estes só podem ser os donos da tal empresa. Se esta corja se instituiu donos do que tantos acreditam ser uma instituição centenária há milhares de otários que os subsidiam em suas fantasias nojentas, nas suas propinas, bacanais e exorbitâncias vâs.

Enquanto alguns pedem desculpas, arruinados em sua carreira ou na sua integridade física, esses cães fétidos continuarão jogando suas fezes das sacadas, pois sempre haverá um cordão uniformizado disposto a financiar sua robalheira e seus churrascos com peladas de domingo transmitidas pelos pay-per-view.
E não estou falando dos cartolas do alvi-verde. Isso é o câncer na indústria do futebol que cresce às custas de sangue inocente e do dinheiro de miseráveis que levam aos estádios suas frustrações e as transformam em auto-flagelo.
Isso me levou a definitivamente desacreditar do futebol enquanto esporte e paixão. Gosto de assistir a uma boa partida e considero um bom entretenimento. Apenas isso. Não acredito em paixão por empresas travestidas de patrimônio público, não apoio torcidas organizadas, constituidas atualmente como refúgio e covil de marginais, nem dou crédito a qualquer clube, já que TODOS compram resultados, arruinam carreiras dos que não rezam conforme o seu terço e servem como simples acessórios libidinosos de joguinhos que causam vergonha alheia (como diz bem um amigo meu).

Não invista em futebol. Não acredite no futebol. Jogue futebol, corra, transpire e canse.
Mas acredite em coisas melhores, que possam fazer algo pra melhorar a vida de alguém e que não seja de propriedade de bandidos.

Se quiser me convidar pra assistir a um jogo, fique à vontade, pois irei. Mas não pago mais ingresso.
E, apenas por protesto, em 2010, que não seja do Coxa. Jogo do Coxa, só em 2011, pela TV aberta.

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Flerte

Posted on 03. dez, 2009 by Fábio Bioca.

2
Há mistério, com certeza
E depõe contra o meu olhar
Que no espelho da janela
Aviltado, ao sorrir dela
Foi relapso, tristeza…
Evitando o desviar.
Foram horas, num segundo.
No segundo, foram dias.
Já no próximo, paixão.
Criminoso de intenção,
Deu-se cego o moribundo
Num ato de covardia.
E o encanto crepitado,
Conspirado em petição,
Escorria em versos brandos
Dando pistas sobre quando
O seu rosto emoldurado
Caberia em minhas mãos.

Há mistério, com certeza

E depõe contra o meu olhar

Que no espelho da janela

Aviltado, ao sorrir dela

Foi relapso, tristeza…

Evitando o desviar.

Foram horas, num segundo.

No segundo, foram dias.

Já no próximo, paixão.

Criminoso de intenção,

Deu-se cego o moribundo

Num ato de covardia.

E o encanto crepitado,

Conspirado em petição,

Escorria em versos brandos

Dando pistas sobre quando

O seu rosto emoldurado

Caberia em minhas mãos.

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Fantasticaos

Posted on 30. nov, 2009 by Fábio Bioca.

0

.
Quanta estupidêz tentar contê-la
Se ela escorre e queima. Intra.
Demole paredes e extrai janelas
Perturba, intensa, esmiúça. Repele.
Alavanca ao alto as frágeis portelas
Às mil catapultas, assola. Excele.
Antes que espere por força retê-la,
Transijo de mento ao chão sem que sinta.
Que vão-se os telhados, que em vão resistiram
À fúria rajada de nitro que impele.
Suas ondas explodem os diques. Suspiro.
Inspiro e mergulho. De arrasto feriram,
Mas não deceparam. Com força me viro,
Voltando meus olhos à origem que viram.
E como um infante guerreiro me atiro
Na volta aos teus braços e à paz que me excede.
Das áridas marcas que sobram de herança
Borbulham meus rios em tom de canção.
Farão das planícies a fértil lembrança
Das coisas mais puras, quando vi, criança,
Tua pele rosada, teu toque, tua dança.
Tua fuga gentil ante à provocação
Que fez cataclisma e pôs fim à razão,
Ebulindo do caos nossa nova esperança.
Quanta estupidêz tentar contê-la
Se ela escorre e queima. Intra.
Demole paredes e extrai janelas;
Perturba, intensa, esmiúça. Repele.
Alavanca ao alto as frágeis portelas
Às mil catapultas, assola. Excele.
Antes que espere por força retê-la,
Transijo de mento ao chão sem que sinta.
Que vão-se os telhados, que em vão resistiram
À fúria rajada de nitro que impele.
Suas ondas explodem os diques. Suspiro.
Inspiro e mergulho. De arrasto feriram,
Mas não deceparam. Com força me viro,
Voltando meus olhos à origem que viram.
E como um infante guerreiro me atiro
Na volta aos teus braços e à paz que me excede.
Das áridas marcas que sobram de herança,
Borbulham meus rios em tom de canção.
Farão das planícies a fértil lembrança
Das coisas mais puras, quando vi, criança,
Tua pele rosada, teu toque, tua dança…
Tua fuga gentil ante à provocação
Que fez cataclisma e pôs fim à razão,
Ebulindo, do caos, nossa nova esperança.

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Presença

Posted on 23. nov, 2009 by Fábio Bioca.

0
Em uma falha do tempo sinto tua sombra deslizando nas minhas câmaras mais profundas.
O meu suor brota dos poros perfumando tua presença. Sinto um arrepio seguido do calor das tuas mãos sobre meus ombros. O teu fôlego escorre sobre a minha cabeça possuindo todo o meu ânimo em um abraço como se quebrasse todos os meus ossos. Fecho os olhos
e me entrego totalmente ao teu colo. Sinto-me mais leve que qualquer dimensão.
Sou alma arrebatada, evaporada e transformada em grande tempestade.
Posso andar sobre os raios e trovões e sentir o vento sussurrando teu nome,
como um coral em meus ouvidos.
Meu coração se desmancha e as lágrimas se me desprendem num salto majestoso até a terra.
Ouço toda a criação chorando a saudade de sermos indivisíveis…
Meu sangue pulsa em intervalos freqüentes como ondas quebrando no tremor da areia.
Meus pensamentos voam velozes entrelaçando-se aos teus dedos. Ouço teu riso e rio solto.
Meu peito treme ao passar por mim um turbilhão de águas mornas cristalinas.
Desfaleço dizendo o quanto te amo…

Em uma falha do tempo sinto tua sombra deslizando nas minhas câmaras mais profundas.

O meu suor brota dos poros perfumando tua presença. Sinto um arrepio seguido do calor das tuas mãos sobre meus ombros. O teu fôlego escorre sobre a minha cabeça possuindo todo o meu ânimo em um abraço como se quebrasse todos os meus ossos. Fecho os olhos e me entrego totalmente ao teu colo. Sinto-me mais leve que qualquer dimensão.

Sou alma arrebatada, evaporada e transformada em grande tempestade.

Posso andar sobre os raios e trovões e sentir o vento sussurrando teu nome, como um coral em meus ouvidos.

Meu coração se desmancha e as lágrimas se me desprendem num salto majestoso até a terra.

Ouço toda a criação chorando a saudade de sermos quase indivisíveis…

Meu sangue pulsa em intervalos freqüentes como ondas quebrando no tremor da areia.

Meus pensamentos voam velozes entrelaçando-se aos teus dedos. Ouço teu riso e rio solto.

Meu peito treme ao passar por mim um turbilhão de águas mornas cristalinas.

Desfaleço dizendo o quanto te amo…

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Colisão

Posted on 18. nov, 2009 by Fábio Bioca.

0
Às vezes, o anseio descarrila para a ganância
e tudo entra em desconformidade.
Em poucos passos, tudo parece plausível
e a insanidade corrompe a brisa a furacão
capaz de arrancar árvores centenárias
e jogá-las no mar, longe de tudo o que faria sentido.
Assim, o abraço sufoca e o afago fere.
E tudo o que resta é assolação e flagelo.
Sobras, migalhas e pisadas de Quasímodo.
No palco molhado, subsistem apenas um trio de atores:
A morte, o erro e o imprevisto.
Tenho sido o erro grosseiro
sonhando ser o imprevisto.
Mas, se uma atitude pode mudar acontecimentos,
me perdoe mais uma vez.

Às vezes, o anseio descarrila para a ganância

e tudo entra em desconformidade.

Em poucos passos, tudo parece plausível

e a insanidade corrompe a brisa a furacão

capaz de arrancar árvores centenárias

e jogá-las no mar, longe de tudo o que faria sentido.

Assim, o abraço sufoca e o afago fere.

E tudo o que resta é assolação e flagelo.

Sobras, migalhas e pisadas de Quasímodo.

No palco molhado, subsistem apenas um trio de atores:

A morte, o erro e o imprevisto.

Tenho sido o erro grosseiro

sonhando ser o imprevisto.

Mas, se uma atitude pode mudar fatos,

me perdoe mais uma vez.

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Ocasional

Posted on 16. nov, 2009 by Fábio Bioca.

3
Quando você tornar a me encontrar, preciso que demonstre que me viu.
Preciso que me veja demonstrando quando deverá me reencontrar.
E demonstre que precisa que eu te encontre no momento em que me vir te procurar
Desencontrado e precisado de você, tão impreciso como quando me sorriu.
Quando sorrir novamente, não esqueça que há quem sofra simplesmente por não ver.
Há quem veja e não saiba o que é sofrer, pois teu sorriso é tudo quanto lhe interessa.
Quando você tornar a me beijar, preciso que me fite bem os olhos.
Preciso que de olhos bem aflitos, você me beije enquanto seja meu entorno.
E se tornar a precisar que eu te beije, apenas fique, só me olhe e mostre quando,
Pois eu não fujo dos teus beijos precisando sentir tua pele no acalento do teu colo.
Quando se for, não esqueça de voltar, senão vou ter que demonstrar quando te vir
Quanto preciso que me encontre novamente no mesmo quando eu tornar a te encontrar.

Quando você tornar a me encontrar, preciso que demonstre que me viu.

Preciso que me veja demonstrando quando deverá me reencontrar.

E demonstre que precisa que eu te encontre no momento em que me vir te procurar

Desencontrado e precisado de você, tão impreciso como quando me sorriu.

Quando sorrir novamente, não esqueça que há quem sofra simplesmente por não ver.

Há quem veja e não saiba o que é sofrer, pois teu sorriso é tudo quanto lhe interessa.

Quando você tornar a me beijar, preciso que me fite bem os olhos.

Preciso que de olhos bem aflitos, você me beije enquanto seja meu entorno.

E se tornar a precisar que eu te beije, apenas fique. Só me olhe e mostre quando,

Pois eu não fujo dos teus beijos precisando sentir tua pele no acalento do teu colo.

Quando se for, não esqueça de voltar, senão vou ter que demonstrar quando te vir

Quanto preciso que me encontre novamente no mesmo quando eu tornar a te encontrar.

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Maldição de Gisele

Posted on 16. nov, 2009 by Fábio Bioca.

1
“…Eu odeio esses sapatos de prástico!” Esbravejou a mulher atrás de mim.
Subiam a rampa como quem resolveu começar a faxina mais cedo.
Solícita, a outra emendou ao seu comentário enquanto me ultrapassavam:
“Eu também… Meu pé incha, fica todo molhado e gelado.”
“É…” Concordou a primeira, como se tivesse encontrado a sua cara-metade,
“…Parece que o pé não respira, né?”
E foram-se da minha vista ao som daquele “plec-plec” irritante sobre a calçada, até dobrarem a esquina por trás de um enorme display com um anúncio da tal sandália, calçada nos pés daquela modelo famosa.
Apesar dos tantos ruídos do calçadão, ainda dava para ouvir o diálogo, que pelo jeito durou mais alguns pares de esquinas:
“Essas coisas eu usava quando era menina.”
“Agora tá virando moda de novo…”
“…Eu odeio esses sapatos de prástico!” Esbravejou a mulher atrás de mim.
Subiam a rampa como quem resolveu começar a faxina mais cedo.
Solícita, a outra emendou ao seu comentário enquanto me ultrapassavam:
“Eu também… Meu pé incha, fica todo molhado e gelado.”
“É…” Concordou a primeira, como se tivesse encontrado a sua cara-metade,
“…Parece que o pé não respira, né?”
E foram-se da minha vista ao som daquele “plec-plec” irritante sobre a calçada,
até dobrarem a esquina por trás de um enorme display com um anúncio da tal sandália,
calçada nos pés daquela modelo famosa.
Apesar dos tantos ruídos do calçadão, ainda dava para ouvir o diálogo, que pelo jeito durou mais alguns pares de esquinas:
“Essas coisas eu usava quando era menina.”
“Agora tá virando moda de novo…”

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Foz

Posted on 12. nov, 2009 by Fábio Bioca.

0
Jorram minhas águas das nascentes
e, ao franzí-las pretejando a escuridão,
já retalham-me a face os afluentes
escorrendo até as tramas do algodão.
Tanta dor, espasmos, prantos incontidos
na bacia do meu rosto contraído,
cachoeiras, corredeiras invisíveis,
inaudíveis num gemido agonizante
vão sumindo no efeito ressecante
da erosão no meu sorriso destruído.
Submergem no teu mar indiferente
pra acordar em meu deserto amanhecido.

Jorram minhas águas das nascentes

e, ao franzí-las pretejando a escuridão,

já retalham-me a face os afluentes

escorrendo até as tramas do algodão.

Tanta dor, espasmos, prantos incontidos

na bacia do meu rosto contraído,

cachoeiras, corredeiras invisíveis,

inaudíveis num gemido agonizante

vão sumindo no efeito ressecante

da erosão no meu sorriso destruído.

Submergem no teu mar indiferente

pra acordar em meu deserto amanhecido.

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Noturna

Posted on 10. nov, 2009 by Fábio Bioca.

0

A noite escura fascina

Cura, satisfaz à sina.

Obscura, a alguns refaz

E a outros assassina.

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Calabouço

Posted on 09. nov, 2009 by Fábio Bioca.

0
Recolhe-me a fala, a vista, o som…
Tua ausência me exala o aroma de um tom
que passeia, dilui-se em meu pensamento
criando o eterno, de um simples momento;
Vibrando um vazio, gerando implosão.
Ruindo o tangível e tornando exprimível
o meu sentimento ao invés da razão.
Sinfônica irrompe tua voz da surdez:
suave, tal qual chuva.
Não mais vejo o mundo que há pouco desfêz-se.
E a visão como luva
retorna-me aos olhos, moldando os desejos,
fazendo possível tocar-te com um beijo.
Só falta-me a fala pra obra completa…
Arrisco a voz, mas me dói. Me afeta!
Quis tanto falar-te da minha afeição…
Saiu-me um gemido tão puro e exclusivo
que neste improviso eu quase consigo
expressar-te a emoção.

Recolhe-me a fala, a vista, o som…

Tua ausência me exala o aroma de um tom

que passeia, dilui-se em meu pensamento

criando o eterno, de um simples momento;

Vibrando um vazio, gerando implosão.

Ruindo o tangível e tornando exprimível

o meu sentimento ao invés da razão.

Sinfônica irrompe tua voz da surdez:

suave, tal qual chuva.

Não mais vejo o mundo que há pouco desfêz-se.

E a visão como luva

retorna-me aos olhos, moldando os desejos,

fazendo possível tocar-te com um beijo.

Só falta-me a fala pra obra completa…

Arrisco a voz, mas me dói. Me afeta!

Quis tanto falar-te da minha afeição…

Saiu-me um gemido tão puro e exclusivo

que neste improviso eu quase consigo

expressar-te a emoção.

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Salmo 2

Posted on 09. nov, 2009 by Fábio Bioca.

0
Finalmente me vejo – …estranho sentir a própria respiração… Alheia, me parece.
Sou-me intruso dentro do próprio coração.
Luto contra o luto e admito – sei lá porquê!…
O dope desacelerou-me as marteladas no peito febril onde parecem mais fortes.
Demolição.
Caem-me as íntimas fortalezas diante dos olhos atônitos.
Rendição…
Estremecem-me os ossos acompanhando-me o chôro afônico da alma.
Assassinei minha própria astúcia, meu Deus!!!
Não permita que os nossos inimigos se fartem da minha nudez.
Desafogue-me da ira dos homens e apresse a alvorada tardia,
pois a minha dor tem travado batalha de pêlos e carne
contra o esmorecer da fé que me deste.
Mas, se ouvires o meu pranto, saberás o que tenho dito sobre ti:
Jamais haverá outro. Tu és o meu Amo.
Sei que todos os meus desejos moram em ti.
Tende misericórdia!!!
Toma-me pela mão e vamos caminhar um pouco. Preciso de companhia…
E, se não me é possível desfrutar da humana, ainda mais necessito da divina.

Finalmente me vejo – …estranho sentir a própria respiração… Alheia, me parece.
Sou-me intruso dentro do próprio coração.
Luto contra o luto e admito – sei lá porquê!…
O dope desacelerou-me as marteladas no peito febril onde parecem mais fortes.

Demolição.

Caem-me as íntimas fortalezas diante dos olhos atônitos.

Rendição…

Estremecem-me os ossos acompanhando-me o chôro afônico da alma.
Assassinei minha própria astúcia, meu Deus!!!
Não permita que os nossos inimigos se fartem da minha nudez.
Desafogue-me da ira dos homens e apresse a alvorada tardia,
pois a minha dor tem travado batalha de pêlos e carne
contra o esmorecer da fé que me deste.
Mas, se ouvires o meu pranto, saberás o que tenho dito sobre ti:
Jamais haverá outro. Tu és o meu Amo.
Sei que todos os meus desejos moram em ti.
Tende misericórdia!!!
Toma-me pela mão e vamos caminhar um pouco. Preciso de companhia…
E, se não me é possível desfrutar da humana, ainda mais necessito da divina.

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Reforma

Posted on 06. nov, 2009 by Fábio Bioca.

0
Resolvi mudar o amor.
Decidi fazer valer a liberdade.
Desisti da onipresença.
Descobri que amar você vai muito além de tê-la.
É te fazer feliz. E ser feliz com uma simples risada tua.
Instituí uma nova ordem. A de doar simplesmente.
Qualquer coisa que eu tenha de melhor.
O companheirismo, a sinceridade, a admiração…
E daqui, a um palmo apenas, não espero quase nada.
Um sorriso apenas e a tua lembrança.
Um bom papo e, quem sabe, um vinho.
Mudar o amor foi simples. Amar você é fácil.

O difícil é te esquecer. Isso eu nem ten

to.

.

Resolvi mudar o amor.
Decidi fazer valer a liberdade.
Desisti da onipresença.
Descobri que amar você vai muito além de tê-la.
É te fazer feliz. E ser feliz com uma simples risada tua.

Instituí uma nova ordem. A de doar simplesmente
Qualquer coisa que eu tenha de melhor.
O companheirismo, a sinceridade, a admiração…

E daqui, a um palmo apenas, não espero quase nada.
Um sorriso, apenas, e a tua lembrança.
Um bom papo e, quem sabe, um vinho.
Mudar o amor foi simples. Amar você é fácil.
O difícil mesmo é te esquecer. Isso eu nem tento.

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Rotina

Posted on 04. nov, 2009 by Fábio Bioca.

0

Lá vou eu pra mais um estágio que já conheço do processo.
A maré fica estranha. A água turva e o vento muda a cada meia-hora.
Pelo jeito vai chover pra valer.
Depois virão aquelas ondas gigantes, tentando me sufocar à náusea e perplexidade. Mas já não me assusto com elas. Vou flutuar até acordar entre destroços quaisquer.
Uma hora o sol vai ter que aparecer. Assim, secam-se os trapos, as feridas e o instinto ressurge entre uma lembrança ou outra pra fazer a vida continuar valendo a pena.
Esse é o mal que vem com a capacidade da regeneração: a conformação com a inconseqüência abrupta nos casos de perda da razão.
Como as marcas não dóem, enfeiam apenas o orgulho, que de pouco serve, neste caso. Afinal, ter se tornado um sobrevivente tão imune compensa as cicatrizes.
O único desfalque é o lugar onde antes havia a fé.
A fé no que é puro. A fé no olhar absolutamente sincero ou no toque simplesmente donativo.
Coisas que farão falta e, esta sim, doerá como tortura.
Como sintoma de um vírus letal que mata aos poucos tudo o que foi genuíno, alimentando uma coragem insana para enfretar essas catástrofes que fecham cada ciclo.

.

Lá vou eu pra mais um estágio que já conheço do processo.

A maré fica estranha. A água turva e o vento muda a cada meia-hora.
Pelo jeito vai chover pra valer.
Depois virão aquelas ondas gigantes, tentando me sufocar à náusea e perplexidade. Mas já não me assusto com elas. Vou flutuar até acordar entre destroços quaisquer.
Uma hora o sol vai ter que aparecer. Assim, secam-se os trapos, as feridas e o instinto ressurge entre uma lembrança ou outra pra fazer a vida continuar valendo a pena.
Esse é o mal que vem com a capacidade da regeneração: a conformação com a inconseqüência abrupta nos casos de perda da razão.
Como as marcas não dóem, enfeiam apenas o orgulho, que de pouco serve, neste caso. Afinal, ter se tornado um sobrevivente tão imune compensa as cicatrizes.
O único desfalque é o lugar onde antes havia a fé.
A fé no que é puro. A fé no olhar absolutamente sincero ou no toque simplesmente donativo.
Coisas que farão falta e, esta sim, doerá como tortura.
Como sintoma de um vírus letal que mata aos poucos tudo o que foi genuíno, alimentando uma coragem insana para enfrentar essas catástrofes que fecham cada ciclo.

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Minha versão de Doce Novembro

Posted on 04. nov, 2009 by Fábio Bioca.

14
Que sexta-feira, aquela! Não acabava nunca.
Lutei enquanto pude contra o sono, até que finalmente cansei e adormeci.
Logo que acordei, num sábado ensolarado, a ansiedade tomou conta do meu dia.
Ouvi uma movimentação lá fora e vi pela janela da sala que meu pai havia chegado.
Ao lado de uma fileira de margaridas brancas, estava faceiro e colocava e tirava coisas do porta-malas da nossa Variant vermelha.
Num lapso do tempo, estavamos sentados quase histéricos no banco traseiro, eu e meu irmão, de camiseta listrada. O Rubinho, que nos servia de babá improvisada, ia na frente, enquanto meu pai guiava-nos pelas curvas da estrada por algumas dezenas de kilômetros intermináveis.
Finalmente, chegamos a uma rampa enorme que dava acesso ao prédio onde estava a grande surpresa.
Não lembro direito o que se sucedeu em seguida disso.
Provavelmente porque não tem a menor importância perto do que eu estava para viver.
Entramos por um corredorzinho que dava acesso a um quarto que variava entre o bege e o cinza e finalmente: lá estava minha mãe.
Com seus cabelos longos e sorriso suave, olhou pra mim para meu irmão como quem diz “oi, estava esperando vocês…”
Fui direto ao que mais me interessava. No seu colo, tinha uma mantinha toda enrolada, como um casulo. E, dentro dela, uma cabecinha. Pelo menos era a única coisa que dava pra ver para matar a minha curiosidade.
Lá estava ela. Foi amor à primeira vista.
Mal sabia eu que ela seria a princesinha da nossa casa.
Nem fazia idéia, também, que ela seria tão branquinha, de bochechinhas rosadas, olhos grandes como os de mangá.
Como seria linda nossa menina.
Ah, se eu soubesse o quanto ela me traria alegria…
Eu nem imaginava o quanto seríamos cúmplices. Quantas vezes nos beijaríamos nos abraços apertados.
Eu jamais entenderia naquele momento como seria bom vê-la sorrir enquanto cresceríamos, dia-a-dia.
Muito menos o quanto sentiria sua falta quando estivéssemos longe.
Foi mágico!
Tão forte que imprimiu na mimha memória como se tivesse sido escrito com uma faca no tronco de uma árvore.
Amanhã vou acordar novamente no dia quinto dia de novembro e já serão 32 anos do grande encontro inesquecível.
Muito tempo depois que voltamos no nosso carro vermelho para uma vida diferente da que tínhamos até outubro.
Uma vida a 5, depois a 6, 7, 8…
Numa casa onde sempre tivemos tantos meninos à mesa, sempre houve um lugar especial para a doçura e a delicadeza.
Um lugar para roubava nossa atenção.
Que linda nossa menina!
Que menina linda!
Que linda, Jeanine.
Parabéns, Jê. Desde aquele 4 de novembro, sempre amei você e vou amar todos os dias.

Que sexta-feira, aquela! Não acabava nunca.

Lutei enquanto pude contra o sono, até que finalmente cansei e adormeci.
Logo que acordei, num sábado ensolarado, a ansiedade tomou conta do meu dia.
Ouvi uma movimentação lá fora e vi pela janela da sala que meu pai havia chegado.
Ao lado de uma fileira de margaridas brancas, estava faceiro e colocava e tirava coisas do porta-malas da nossa Variant vermelha.

Num lapso do tempo, estavamos sentados quase histéricos no banco traseiro, eu e meu irmão, de camiseta listrada. O Rubinho, que nos servia de babá improvisada, ia na frente, enquanto meu pai guiava-nos pelas curvas da estrada por algumas dezenas de kilômetros intermináveis.
Finalmente, chegamos a uma rampa enorme que dava acesso ao prédio onde estava a grande surpresa. Não lembro direito o que se sucedeu em seguida disso. Provavelmente porque não tem a menor importância perto do que eu estava para viver.
Entramos por um corredorzinho que dava acesso a um quarto que variava entre o bege e o cinza e finalmente: lá estava minha mãe. Com seus cabelos longos e sorriso suave, olhou pra mim para meu irmão como quem diz “oi, estava esperando vocês…”

Fui direto ao que mais me interessava. No seu colo, tinha uma mantinha toda enrolada, como um casulo. E, dentro dela, uma cabecinha. Pelo menos era a única coisa que dava pra ver para matar a minha curiosidade.

Lá estava ela. Foi amor à primeira vista.

Mal sabia eu que ela seria a princesinha da nossa casa. Nem fazia idéia, também, que ela seria tão branquinha, de bochechinhas rosadas, olhos grandes como os de mangá. Como seria linda nossa menina.
Ah, se eu soubesse o quanto ela me traria alegria… Eu nem imaginava o quanto seríamos cúmplices. Quantas vezes nos beijaríamos nos abraços apertados.
Eu jamais entenderia naquele momento como seria bom vê-la sorrir enquanto cresceríamos, dia-a-dia. Muito menos o quanto sentiria sua falta quando estivéssemos longe.

Foi mágico!

Tão forte que imprimiu na mimha memória como se tivesse sido escrito com uma faca no tronco de uma árvore.
Amanhã vou acordar novamente no dia quinto dia de novembro e já serão 32 anos do grande encontro inesquecível. Muito tempo depois que voltamos no nosso carro vermelho para uma vida diferente da que tínhamos até outubro. Uma vida a 5, depois a 6, 7, 8…

Depois disso, numa casa onde sempre tivemos tantos meninos à mesa, sempre houve um lugar especial para a doçura e a delicadeza.
Um lugar que roubava nossa atenção.

Que linda nossa menina!
Que menina linda!
Que linda, Jeanine.

Parabéns, Jê. Desde aquele 5 (na verdade, 4) de novembro, sempre amei você e vou amar todos os dias.

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Desapego

Posted on 03. nov, 2009 by Fábio Bioca.

0
Fô’imbora a fía da Cida…
Tão centrada a minina… tão bunita!
Nem avisô, nem nada.
Subiu na garupa daquela bicicreta e sumiu coa pueira do sol.
Êsses dia ouvi falá que ela ligou de longe, pra desejá felicidade.
Acho que era Agosto.
Hum…
…Até que era bunitão o rapaz… O da bicreta.
Mas essa minina parecia tão ca cabeça no lugá?…
Não divia saí por aí quiném uma doida, sem rumo.
Num levô nem os ducumento!?
Disse que um dia vorta pra apanhá.
A Cida disse que ela tá bem.
Que vive viajando.
Parece que tá pensando em ter um minino.
Eu queria vê. Deve sê bunito o tal minino.
Fio é assim…
A gente cria pro mundo.
E o mundo é que dá cabo da gente.
Pelo menos a gente sabe que eles crésce pertinho da saia da gente.
Despois é cada um por si… como Deus quisé.
E o qui ele qué senão as alegria da gente, né?
… Bão, vô cuidá da cozinha, que tem um bolo qui deve de tá queimando já.
E eu ainda quero levá um pedacinho pra contentá a Cida um poquinho.
Eu também tô indo que o sereno vai estragá tudo a minha roupa do varal…
Diz pra Cida que antes da novela eu passo lá pra entregá a roupa dela.
E não me fala do rapáiz da bicicleta, que ela morre de ciúme…
Fui…

.

Fô’imbora a fía da Cida…
Tão centrada a minina… tão bunita!
Nem avisô, nem nada.
Subiu na garupa daquela bicicreta e sumiu coa pueira do sol.

Êsses dia ouvi falá que ela ligou de longe, pra desejá felicidade.
Acho que era Agosto.

Hum…
…Até que era bunitão o rapaz… O da bicreta.
Mas essa minina parecia tão ca cabeça no lugá?…
Não divia saí por aí quiném uma doida, sem rumo.
Num levô nem os ducumento!?
Disse que um dia vorta pra apanhá.

A Cida disse que ela tá bem.
Que vive viajando.
Parece que tá pensando em ter um minino.
Eu queria vê. Deve sê bunito o tal minino.

Fio é assim…
A gente cria pro mundo.
E o mundo é que dá cabo da gente.
Pelo menos a gente sabe que eles crésce pertinho da saia da gente.
Despois é cada um por si… como Deus quisé.

E o qui ele qué senão as alegria da gente, né?

… Bão, vô cuidá da cozinha, que tem um bolo qui deve de tá queimando já.
E eu ainda quero levá um pedacinho pra contentá a Cida um poquinho.

Eu também tô indo que o sereno vai estragá tudo a minha roupa do varal…
Diz pra Cida que antes da novela eu passo lá pra entregá a roupa dela.
E não me fala do rapáiz da bicicleta, que ela morre de ciúme…
Fui…

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Neguinha

Posted on 02. nov, 2009 by Fábio Bioca.

8
Ôpa, lá vem a neguinha bem na hora!…
Me agacho atrás do muro divertindo-me ao vê-la brincar.
Hoje a atração é especial. Com uma mão na cintura, marcando os passos, ora pra frente, ora pra trás, rebola cantarolando em seu microfone imaginário servida por suas bailarinas backings formidáveis.
Tem todo o jeito de mulher essa menina. Como é linda! Como sonha…
Os longos braços da fantasia a envolvem de uma maneira muito particular. E ela segue encantando com seu show desinibido. Troca a mão do microfone, passa o dedos entre os duros cabelinhos armados e aponta para a sua platéia, sem desconfiar que faço parte dela.
De repente, numa sincronia invejável, todas dão a música por encerrada no mesmo compasso e agradecem os infindáveis aplausos.
Agora, ao silêncio da pausa, de algum radinho mono lá no fundo, surge um samba antigo de roda e o espetáculo reinicia com outro cenário, embalado pelo improviso da menor e mais graciosa  porta-bandeira de toda a São Gonçalo.
Dum, dum, ticum-dum… Dum, dum, ticum-dum…
…Os pézinhos áridos, arrastam a poeira com maestria até a exaustão quando finalmente deixam-se cair no chão seco, rindo e gargalhando à tôa.
Neste momento, quando o público se levanta para ir embora, inclusive eu, temendo ser descoberto, um ruído familiar interrompe a encenação e todas saem correndo em disparada para a rua, tão eufóricas que nem sequer me perbecebem em flagrante além do muro.
Quem poderia ser senão o mágico vendedor de roleta, aquela casquinha sem gosto definido que as crianças adoram. O homem de rosto sofrido, ilhado entre aquelas cabecinhas de cabelinhos cheios de pelinhos e bolinhas brancas pede calma e distribui a cada uma suas iguarias.
Sem se dar conta da minha suspeita presença, as meninas passam mais uma vez, com um brilho intenso nos olhos hipnotizados, seguindo para a escadinha da frente da casa e lá, sentadas, falam umas sobre as outras,  sorrindo e devorando as maravilhosas gostosuras sem gosto…
Começa a esfriar e o sol está prestes a se recolher de vez.
É melhor ir embora. As luzes dos postes já estão rosadas, querendo acordar e anunciar a noite.
Amanhã haverá outro show, com certeza. Talvez eu dê sorte como hoje e chegue bem no horário.
Quem sabe amanhã ela me veja em meio aos seus tietes e me puxe pela mão para cima do palco.
Puxa! Seria o dia mais feliz da minha vida…
Quem dera a gente crescesse e se encontrasse numa sexta-feira, e ela me olhasse com aquele olhar maroto… Eu juro que nunca mais largava essa neguinha! Arrastava ela para uma igrejinha e arrematava todos os seus espetáculos por toda a nossa vida.
Mas um dia eu cresço…

Ôpa, lá vem a neguinha bem na hora!…

Me agacho atrás do muro divertindo-me ao vê-la brincar.

Hoje a atração é especial. Com uma mão na cintura, marcando os passos, ora pra frente, ora pra trás, rebola cantarolando em seu microfone imaginário servida por suas bailarinas backings formidáveis.

Tem todo o jeito de mulher essa menina. Como é linda! Como sonha…

Os longos braços da fantasia a envolvem de uma maneira muito particular. E ela segue encantando com seu show desinibido. Troca a mão do microfone, passa os dedos entre os duros cabelinhos armados e aponta para a sua platéia, sem desconfiar que faço parte dela.

De repente, numa sincronia invejável, todas dão a música por encerrada no mesmo compasso e agradecem os infindáveis aplausos.

Agora, ao silêncio da pausa, de algum radinho mono lá no fundo, surge um samba antigo de roda e o espetáculo reinicia com outro cenário, embalado pelo improviso da menor e mais graciosa  porta-bandeira de toda a São Gonçalo.

Dum, dum, ticum-dum… Dum, dum, ticum-dum…

…Os pezinhos áridos, arrastam a poeira com maestria até a exaustão quando finalmente deixam-se cair no chão seco, rindo e gargalhando à tôa.

Neste momento, quando o público se levanta para ir embora, inclusive eu, temendo ser descoberto, um ruído familiar interrompe a encenação e todas saem correndo em disparada para a rua, tão eufóricas que nem sequer me perbecebem em flagrante, além do muro.

Quem poderia ser senão o mágico vendedor de roleta? –  aquela casquinha sem gosto definido que as crianças adoram. O homem de rosto sofrido, ilhado entre aquelas cabecinhas de cabelinhos cheios de pelinhos e bolinhas brancas pede calma e distribui a cada uma suas iguarias.

Sem se dar conta da minha suspeita presença, as meninas passam mais uma vez, com um brilho intenso nos olhos hipnotizados, seguindo para a escadinha da frente da casa e lá, sentadas, falam umas sobre as outras,  sorrindo e devorando as maravilhosas gostosuras sem gosto…

Começa a esfriar e o sol está prestes a se recolher de vez.

É melhor ir embora. As luzes dos postes já estão rosadas, querendo acordar e anunciar a noite.

Amanhã haverá outro show, com certeza. Talvez eu dê sorte como hoje e chegue bem no horário.

Quem sabe amanhã ela me veja em meio aos seus tietes e me puxe pela mão para cima do palco.

Puxa! Seria o dia mais feliz da minha vida…

Quem dera a gente crescesse e se encontrasse numa sexta-feira, e ela me olhasse com aquele olhar maroto… Eu juro que nunca mais largava essa neguinha! Arrastava ela para uma igrejinha e arrematava todos os seus espetáculos por toda a nossa vida.

Mas um dia eu cresço…

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